Gay e OK

29Jun09

Hoje de manhã, lendo a Revista do jornal O Globo, me surpreendi. Sei que nem todos os leitores do Gay e OK são do Rio de Janeiro, e lamento que o site do jornal não tenha versão do artigo online, mas, aos que puderem, peço que procurem ler a coluna do psicanalista Alberto Goldin publicada hoje. O título? “Gay e o.k.”. Não sei se se trata de uma coincidência.  Muitos amigos se surpreenderam ao ver o título, assim como eu mesma. Por este motivo, e também pelo tema da coluna, decidi escrever ao jornal. Abaixo publico o e-mail enviado.

* * *

Edito há quase 2 anos o blog Gay e OK (http://gayeok.wordpress.com). Neste espaço, comento notícias, indico produtos culturais e faço entrevistas, a fim de estimular o debate sobre a homossexualidade e de tratar este tema, sempre tão problematizado, de forma mais positiva e natural. Mesmo ainda sem esforços de divulgação, conto com um grupo fiel de leitores – média de 150 visitas diárias no ano de 2009, com um total que ultrapassa 50.000 acessos nestes 2 anos de trabalho.
Qual não foi a minha surpresa, nesta manhã, ver o nome “Gay e o.k.” batizando a coluna do psicanalista Alberto Goldin. Dado o título e o assunto, não me resta alternativa a não ser comentar.
Quando escolhi o nome para o meu blog quis demonstrar que é plenamente possível ser homossexual e estar de bem com isso, e que a homossexualidade não é doença, não é problema, e sequer precisa ser questão. Carecemos de modelos, pouco somos representados na mídia, e socialmente lidamos com a invisibilidade quase todo o tempo, e desta maneira, sem referências, é difícil se entender, se aceitar e se assumir. Ao comentar sobre filmes, sugerir atividades culturais ou entrevistar realizadores do universo GLBT, estou buscando atestar que ser gay é ok através de exemplos positivos, e assim ajudar a pessoas como eu a viver de forma mais leve e plena.
 
Li a carta do leitor Fábio e a resposta do Alberto Goldin. Acredito que o comentário foi bastante feliz, mas gostaria de levantar um ponto importante – a confusão entre ser homem e ser masculino; o gênero, o papel social e até o “jeito” de cada um. Um homem gay, por mais afeminado que possa ser, ainda é um homem. Entendo que o incômodo do leitor não era sua homossexualidade, e sim o “parecer” homossexual (o que entra no jogo da visibilidade social, e para mim denotou que, apesar de estar confortável em relacionar-se intimamente com homens, exercer sua identidade gay ainda é um problema – mas não sou psicanalista). Acho que isso poderia ter ficado mais claro: o mais feminino dos gays não deixa de ser homem, e a mais butch das lésbicas não deixa de ser mulher, mesmo se relacionando com pessoas do mesmo sexo, e mesmo até podendo desempenhar papéis de gênero diferentes dos convencionalmente praticados.
 
 
Tendo sido o título coincidência ou não, convido a todos a uma visita ao blog. Estava de férias, mas nesta semana entrarei com novos posts.

Cordialmente,
Mariana Amaral


Dia da Sogra

28Abr09

Hoje, dia 28 de abril, é Dia da Sogra.

Semana passada, uma repórter do site G1 estava abordando pessoas na Cinelândia para entrevistar sobre a data. Eu, que no momento ando “desprovida” de sogra, não pude ajudar na enquete. Mas depois fiquei imaginando como poderia ter sido a entrevista, caso eu estivesse namorando:

Repórter: Hoje é o Dia da Sogra. O que você pensa sobre essa data?

Eu: Nossa, acho uma data super válida. As sogras merecem reconhecimento!

Repórter: E como é a sua relação com a sua sogra?

Eu: Infelizmente a gente ainda não se conhece.

Repórter: Por quê? Ela mora em outra cidade?

Eu: Não, na verdade ela mora aqui mesmo, mas é que a minha namorada preferiu não falar com ela sobre nosso relacionamento por enquanto.

Repórter: Namorada?! Ah, sim, entendi… Hm… mas e com outras sogras, você se dava bem?

Eu: Ah, sim, sim, eu tive uma sogra que me adorava.

Repórter: Que interessante, isso significa que a sociedade está ficando mais aberta com relação a homossex…

Eu: O problema é que ela só foi saber que era minha sogra quando meu namoro terminou.

* * *

Feliz Dia da Sogra a todas aquelas que curtem seus filhos e os genros, e suas filhas e as noras, de coração sempre aberto.


Noite dessas fui com uns amigos a uma loja de conveniência de um posto de gasolina. Enquanto aguardava um sacar dinheiro e outra procurar por uma caixa de band-aids, fiquei pela prateleira de revistas me distraindo com as manchetes. Estava lá a revista Capricho, parte tão importante da minha adolescência. Junto com a Querida, que eu comecei a ler com uns 11 anos e cheguei até a colecionar, me ajudou a entender e a enfrentar esse período tão esquisito que antecede a idade adulta.

Miley Cyrus, a estrela teen da vez, me olhava sorridente na capa; “4 idéias legais para customizar seu tênis” poderiam me ser úteis de alguma forma, mas o momento de nostalgia não teria se estendido à efetiva compra da revista não fosse o destaque “Vida real: Eu beijei uma garota. E agora?”. Fui carregada de volta a tempos em que nem eu mesma sabia ao certo sobre a minha (homos)sexualidade, mas a Querida e a Capricho me garantiam que, qualquer a minha orientação, estava tudo ok.

Li a matéria quase toda ali mesmo, mas trouxe a revista para casa para analisar com mais calma. Escapou um “homossexualismo” indevido ali, uma “opção” sexual inadequada acolá, mas num âmbito geral a matéria é super positiva e esclarecedora. Ela parte do depoimento de quatro garotas que beijaram outras meninas para ilustrar situações muito comuns: uma que beijou apenas porque teve curiosidade, uma que beijou e acha que é lésbica, outra que acha que é bi, e outra que ainda não conseguiu compreender a experiência. Com o apoio de psicólogos, sexólogos e dados de pesquisas, Capricho explica que uma menina beijar outra não necessariamente significa que ela é lésbica, e que experimentar faz parte do período da adolescência. Mas, caso esteja se reconhecendo como homossexual ou bi, a revista ajuda dando dicas sobre como e para quem se abrir sobre o assunto, e indica dois grupos de suporte – o GPH e o e-jovem.

Achei muito interessante as pesquisas publicadas. De 2524 adolescentes entre 12 e 19 anos, de 55 cidades brasileiras, 44% têm amigos com orientação sexual diferente e lidam bem com isso. ”No meu tempo” a homossexualidade nem era algo mencionado entre os amigos do colégio – a não ser que um grupo de valentões estivesse tirando sarro de alguém, chamando algum menino de bicha. Muita coisa já mudou desde então, pelo visto. Uma outra pesquisa, feita pelo site da Capricho, revelou que, de 6555 meninas, 36% já tiveram vontade de beijar outra garota, e 22% realmente já beijaram. 

Tudo isso me deixou com uma impressão muito boa, e confiante de que as publicações para jovens serão cada vez mais abertas sobre a homossexualidade. Espero que esta edição da Capricho contribua para que várias meninas aceitem melhor seus desejos e afetos, assim como edições antigas contribuíram com isso para mim mesma.


Curtindo as férias, de passagem por uma pacata cidadezinha da Espanha, olho para uma sacada, entre tantas, e lá está ela:

Sacada em Toledo, Espanha

No Sambódromo do Rio de Janeiro, entre tanta gente na arquibancada, lá está ela também:

Desfile da Mangueira (Campeãs), Sambódromo

Onde quer que seja, a presença de uma bandeira do arco-íris instantaneamente me provoca um sorriso. Por viver nossa identidade em segredo, quase invisíveis, sinto que nós homossexuais somos muito carentes de referências e de momentos de identificação. Quando vejo uma bandeira do arco-íris me sinto bem-vinda, acolhida, e esta invisibilidade encarada no dia-a-dia dá lugar a uma sensação muito boa de pertencimento. 

Fora que não se pode negar – temos a sorte de nos fazer representar por um símbolo muito simpático!


Antes de dormir, liguei a televisão no GNT. Era madrugada, e o canal exibia o documentário 101 Garotos de Aluguel, sobre a vida de rapazes que fazem programas nos arredores do Boulevard de Santa Monica, na Califórnia. Não bastasse o tema super instigante, ainda conta com a “grife” Randy Barbato e Fenton Bailey – dos excelentes A Hora da Descoberta  e Geração Trans, já devidamente comentados por aqui.

Não necessariamente garotos de programa que atendem a outros homens são homossexuais, mas este foi um dos temas abordados no documentário – assim como o início nesta atividade, drogas, aspirações pessoais, fetiches.

Infelizmente 101 Garotos de Aluguel não está com nenhuma reprise à vista no GNT, mas recomendo procurar pela Internet e baixar.


Tela de Paul Richmond

Estou absolutamente encantada pelo coloridíssimo trabalho de Paul Richmond, um jovem pintor americano. Seus quadros são cheios de referências pop e gays. Recentemente descobri seu acervo virtual (em seu site pessoal e também no Flickr), e me parece ser alguém de quem ainda ouviremos muito falar.

 Minha verdadeira aspiração profissional era ser a Branca de Neve ou a Dolly Parton. Meus pais esperavam que eu seguisse o Direito ou a Medicina. Chegamos a um consenso, e assim ingressei na escola de artes. 

Quadro de Paul Richmond

O que me fez virar fã mesmo foi seu quadro-crítica à Proposition 8, chamado “O cruzeiro de casamento gay de Noé”. Ellen e Portia, os rapazes de Brokeback Mountain, sir Elton John, um casal de flamingos gays e muito mais em uma só pintura. Não acredita? Clique aqui.

Aplausos a Paul Richmond!


Ivri Lider, cantor pop israelense

Li hoje um post no Twitter que me levou a conhecer o cantor pop israelense Ivri Leader. Ivri é assumidamente gay, e teve a brilhante sacada de gravar um cover de “I Kissed a Girl” - hit de Katy Perry sobre o qual já falei por aqui antes.

Pois descobri que, além disso, ele também fez a trilha do filme The Bubble, outro assunto já comentado no Gay e OK.

Ou seja: já é praticamente de casa.

Para quem ainda não conhece, a versão de Ivri para Katy Perry, no clima “um banquinho e um violão”:


Fuck my life

29Mar09

Um dos meus endereços favoritos na Internet é o Fuck My Life. Funciona como blog colaborativo, e nele pessoas dividem suas pequenas desgraças diárias, em um estilo parecido com o do Twitter. Naquela hora de desilusão e desespero, o FML é ombro amigo, e mostra que sempre existe mais gente no mesmo barco… ou em barco bem pior.

Há casos sobre os mais diversos assuntos, e é óbvio que “a comunidade” está bem representada por lá. É uma história melhor que a outra. Selecionei e traduzi algumas.  Chega a dar pena, mas nem por isso deixam de ser engraçadas! 

Hoje eu saí do armário para a minha mãe. Tinha planejado um discurso épico, mas quando fui tentar falar deu tudo errado. Comecei a chorar e apenas disse ‘Sou gay’. Depois de alguns segundos de silêncio, minha mãe suspira e diz ‘Dã!’. FML

Hoje eu estava saindo para ir à casa de um amigo, quando de repente meus pais perguntaram se eu era gay. Eu respondi que não, que era bissexual. Minha mãe então perguntou se eu já tinha ficado com alguém do mesmo sexo. Eu disse que sim. Ela então vira para o meu pai e diz: ‘Não disse?! Você me deve 20 pratas’. Meu pais apostaram sobre a minha sexualidade. FML

Hoje tive o melhor encontro em anos. Mais tarde, depois de alguns drinks, estamos conversando e eu conto sobre como saí do armário para minha família e amigos. Quando pergunto para ele como foi sua experiência, ele diz que não é gay e, oh, eu tinha pensado que aquilo era um encontro? FML

Hoje fui à casa dos meus pais para jantar. Quando cheguei lá, percebi que havia bandeiras de arco-íris na varanda e adesivos sobre os direitos dos gays colados em seus carros. Havia também um gigantesco cartaz com ‘Nós te aceitamos, Nick’ preso à garagem. Eu não sou gay! FML

Hoje, minha irmã lésbica me mostrou empolgadamente o seu novo strap-on. Não apenas ela fica com mais mulheres do que eu, como agora tem um pênis maior também. FML

* * *

Para mais posts, visite o site Fuck My Life (em Inglês).


Ra Ruiz no píer da Rua Christopher

Um amigo me repassou o link de um projeto muito interessante do jornal The New York Times. Trata-se da série One in 8 Million, na qual a vida na Grande Maçã está sendo representada através de depoimentos individuais de seus moradores (acompanhados de incríveis fotografias). Afinal, como a própria introdução do projeto diz, “Nova Iorque é uma cidade de personagens”.

Entre as histórias está a de Ra Ruiz, uma porto-riquenha lésbica criada no Bronx. Ela conta que já morou nas ruas e em um quarto no porão de um prédio, onde um zelador ameaçava os inquilinos com uma arma. Apanhava na rua por ser homossexual pelos seus próprios colegas de escola, que não se envergonhavam ou temiam encontrá-la no dia seguinte na escola ou na rua, mesmo depois do que haviam feito. Para fugir um pouco desta realidade, visitava sempre o píer da Rua Christopher, onde encontrou seu lugar entre outros jovens homossexuais que passavam por problemas parecidos.

Qual é o seu “píer da Rua Christopher”?


Duas frases que volta e meia aparecem nas estatísticas são quase iguais, mas ao mesmo tempo absolutamente diferentes. Entre “eu sou gay” e “eu sou gay?”, um sinal gráfico marca uma grande distinção.

Antes de mais nada, acho fabuloso uma pessoa abrir seu navegador, digitar www ponto google ponto com ponto br e entrar com essas três palavras, acrescidas ou não do ponto de interrogação, no campo de busca.

No caso da afirmação, me veio à mente um recém-saído do armário. Contou para os amigos, depois para o irmão com quem tinha mais afinidade, para a mãe, para o pai, para uma ou duas pessoas do escritório… E depois para o Google. Fiquei pensando que os primeiros resultados da busca poderiam ser “Good for you!”, “You go, girl!” ou “Eu também… que tal um choppinho mais tarde?”.

No caso da pergunta, já ouvi dizer que o Google tem resposta para tudo, mas jamais imaginei que pudesse reconhecer a sexualidade de alguém. Testei e os primeiros resultados de fato faziam referência ao assunto, e felizmente entre eles havia um ou outro site sério (caso da Cartilha do Mix Brasil e deste humilde blog aqui).  Mas há muita bobagem também. Me perguntei por quanta besteira uma pessoa que faz esta pergunta para o Google precisa passar até que encontre algo relevante, que a ajude de verdade. (Sim, porque se alguém pergunta isso para o Google em vez de para si mesmo, ou para os pais, ou para os amigos, ou para o terapeuta, é porque precisa mesmo de alguma forma de ajuda ou orientação.)

Também me passou pela cabeça as possíveis respostas. “Eu sou gay?” “Sim!”, “Não!”, “‘Você?! Imagiiiiina… eu que sou!”, ou “Olha, gato… se é, eu não sei… mas para usar essa blusa coladinha, vamos primeiro malhar o abdome?!”.




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