Por que é importante criminalizar a homofobia

03fev08

Este é um depoimento real.

Peguei um ônibus vazio na noite de quinta-feira no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, rumo a Ipanema.

 Na praia de Copacabana subiu outro passageiro. O trajeto foi cumprido apenas por nós dois, mais o motorista, durante todo o tempo.

Assim como havia perguntado para mim, o motorista perguntou para o outro passageiro para onde ele iria. Ele afirmou ser cambista e estar indo trabalhar em frente a uma casa de shows. Não sei exatamente como, mas o assunto “evoluiu” para Rio de Janeiro e “viados”.

– Tá cheio disso aí agora, né, irmão? Pouca vergonha cada vez mais escancarada, tudo passando Aids, tuberculose – disse o passageiro.
– Pois é, eu sou da baixada e lá não tinha isso não. Agora tem, ainda mais no Carnaval – respondeu o motorista.
– Tem em todo lugar. Viado e sapatão. Bando de vagabundo. Eu tomo minhas cachaça e como minhas puta; minha vida é assim, não é que nem a desses aí no meio da rua não. Não incomodo ninguém.
– Isso é que tá certo.

Foram 20 longuíssimos minutos, concentrada em não deixar o sangue subir e torcendo para não ser abordada.

Ao fim da jornada, pedi para saltar na Farme de Amoedo, um reconhecido point gay do Rio de Janeiro. O passageiro então dirigiu mais um comentário ao motorista:

– Esse lugar aí que você tá parando é onde eles se reúnem, bando de vagabundo, tudo sem vergonha se pegando na rua.

Já na escada para saltar, não consegui me conter:

– Nós somos gente boa, tá, não é assim não – falei, com a voz trêmula.
– Não, filha, não tenho nada contra não, deixa vagabundo fazer o que quiser.

Fora do ônibus, as mãos suando frio e o coração acelerado. Sei que podia ter falado uma centena de coisas melhores do que “somos gente boa”, mas foi o que a tensão e o medo me permitiram naquele momento.

Sem leis do nosso lado, um episódio assim é sinônimo de desamparo e absoluta apreensão. Senti, pela primeira vez, um medo real de ser fisicamente agredida por conseqüência da minha orientação sexual. E, honestamente, o pavor maior é pensar em pessoas assim soltas por aí, continuando a propagar suas opiniões absurdas e alimentando preconceito, ódio e intolerância, sem qualquer instrumento legal que possa ao menos refreá-las. Cada palavra dita me atingiu como um soco, embora não diretamente direcionada a mim. E, obrigada a manter silêncio, acabei também me agredindo. Caso houvesse entrado em discussão, sabe-se lá o que poderia ter me acontecido. A única certeza é que, sem leis, a justiça jamais teria sido feita.

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8 Responses to “Por que é importante criminalizar a homofobia”

  1. 1 marta

    Nossa… não sei nem o que dizer. Tudo o que pensei vc escreveu. Imagino o que vc sentiu na hora.
    Tenho medo dessas coisas.
    E infelizmente esse medo é um trunfo das pessoas intolerantes e preconceituosas.
    Tem que criminalizar!

  2. Cercear a liberdade de expressão não acaba com o preconceito nem com o ódio; pior, terá efeito contrário. Não sinto pavor de pensar que existem pessoas que não gostam de mim “soltas” por aí, isso não me afeta em nada, mas sinto pavor em pensar que existem pessoas que querem acabar com as liberdades individuais, entre elas a de livre expressão. Se você pode expressar suas opiniões e gostos pessoais é porque desfruta dessa liberdade que deseja limitar.
    Mesmo sendo homem, branco, hetero, já passei por situações semelhantes a essa, mas nem de longe apoio qualquer tentativa de se criar leis para calar outras pessoas. Ou você quer combater intolerância com intolerância? Prefiro pensar que isso foi um repente de revolta no calor das emoções.

    Abraços

  3. 3 gayeok

    Liberdade de expressão é diferente de propagar ódio.

  4. 4 marta

    Até mesmo a liberdade tem um limite, que é justamente a liberdade do seu vizinho. Não podemos sair fazendo coisas simplesmente porque nos dá na telha. Me xingar e me acusar de criar doenças não é legal.

  5. 5 bibi.gil

    já passei por uma situação bem parecida. o ônibus estava mais cheio, mas era o motorista e uma passageira que falavam em alto e bom som o que achavam dessa “putaria”. o pior de tudo é que por diversas vezes “encontrei” com esse indíviduo, pois ele dirigia a linha que eu costumava pegar. tanta ignorância e discurso inflamado me deixavam sempre com o estômago embrulhado. e sinceramente, esse papo de “liberdade de expressão”… mal colocado. ele está ofendendo sacou? não, a gente não pode dizer tudo o que pensa.

  6. 6 Té Pazzarotto

    Oi…
    recentemente postei algo sobre a plc 122, e queria saber se poderia reproduzir esse texto no blog que tenho com 4 amigas…

    =)

  7. 7 Hellen

    Como podemos dizer que ferir a imagem do outro é liberdade de expressão?
    De onde se tirou que insultar o outro é liberdade de expressão?
    Desde quando a liberdade de expressão existe para adentrar no limite do outro?

    Não importa se é hetero, homo, bi ou quantas denominações existam (não existem denominações suficientes para o que se pode ser, ou querer ser)… Importa que sejam humanos, e mesmo que às vezes pareça mentira temos raciocino e inteligência. Temos que encontrar sabedoria… Falta humildade, respeito e humanidade.

    Se uma pessoa é profissional do sexo, usuário de drogas, alcoólatra, negro, branco, religioso, tem uma opção sexual diferente da sua… Não se pode em qualquer hipótese ferir-lhe o direito de ser quem se quer ser estando sem quebrar nenhuma lei. O fato de um ser ter a opção sexual diferente da sua não lhe da o direito de xingá-la… Isso é chamado de danos morais.

    Enquanto não tivermos leis que criminalize esse tipo de atitude vamos continuar tendo a violência por preconceito… Seja ela contra os negros, os religiosos, os homossexuais, idosos…


  1. 1 É crime! « Na Ponta dos Dedos

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