Como o mundo virou gay? Entrevista com André Fischer

18fev09

Fazendo hora em uma livraria, passando descompromissadamente os olhos pelos lançamentos e best-sellers, um arco-íris me chamou a atenção. Não há como ignorar “Como o mundo virou gay? Crônicas sobre a nova ordem sexual”, de André Fischer. Primeiro, por sua capa multicor. Depois, por sua pertinência.

Como o Mundo Virou Gay? - André Fischer

O livro é uma coletânea de crônicas que falam sobre estilo de vida, comportamento, ideais, preconceito, entretenimento, gírias, noite, Parada Gay… Ufa! Não há nada sobre o nosso universo que não esteja ali. Leve e bem-humorado, é leitura obrigatória.

O Gay e OK entrevistou o homem por trás deste livro e de muitos outros projetos – o portal MixBrasil, a revista Junior, o Festival MixBrasil de Cinema, só para citar alguns.

Senhoras e senhores, com vocês, André Fischer.

* * *

GAY E OK_ Escolhi seu livro pela capa. Já de longe, o listrado nos tons de arco-íris mostrou que o assunto seria de meu interesse. Quando bati o olho no título, pronto, foi só levar ao caixa. Existe naquela pergunta um sentido afirmativo muito grande. Não está se questionando “se” o mundo é gay, ou exclamando “O mundo é gay!” com mais empolgação do que propriedade. Quando se pergunta “Como o mundo virou gay?”, parece que o fato de o mundo ser gay já foi compreendido, e que agora estamos é querendo entender como se deu esse processo. Procede?
ANDRÉ FISCHER_ Na verdade é uma brincadeira em cima da percepção sobretudo entre héteros de grandes centros urbanos, dada a grande visibilidade da comunidade LGBT. Evidentemente o mundo não virou gay, está longe disso.  Mas estamos sem dúvida caminhando para uma sociedade bem mais tolerante e onde ser gay não é uma grande questão.

 

 GAY E OK_ Você fala de assuntos muito próprios aos relacionamentos homossexuais – o “recuceteio” ou “economia de elenco”, em que pessoas da mesma turma sempre acabam trocando de parceiros entre si; os relacionamentos abertos; os papéis de “passivo” e “ativo”. Ao mesmo tempo em que tudo me pareceu muito familiar, tive uma impressão de frescor nos assuntos – como se fosse incomum efetivamente ler sobre eles, vê-los romanceados. Precisamos de uma Malhação versão gay?
ANDRÉ FISCHER_ Certamente. O grande problema de gays e lésbicas é a falta de referências. 99% de toda produção audiovisual, em cinema e TV, retrata a realidade da maioria heterossexual. Precisamos de filmes, seriados e novelas mostrando nossa realidade para podermos construir nossa identidade. 

 

 André Fischer, autor de "Como o Mundo Virou Gay?"

GAY E OK_ A terceira idade é um assunto tabu para os homossexuais. No livro, você comenta sobre os sorrisos discretos das vovós em Copacabana ao ver o desfile da Parada Gay carioca, e dos bailes em que distintos senhores dançam um com o outro de rosto colado. Desvendamos o segredo daquela tia solteirona? Como desconstruir a impressão de que o fim da juventude é o fim da linha? 
ANDRÉ FISCHER_ Na Junior que está agora nas bancas há uma matéria bem bacana sobre ser gay aos 60. É preciso mudar essa idéia de que a homossexualidade está ligada à juventude e que é um drama maior ser gay na velhice. Essa geração toda que está agora vivendo mais abertamente sua sexualidade vai chegar lá e precisa entender que não deve ser um drama. Com certeza há problemas em envelhecer, mas não há diferença entre héteros ou gays. Cada um constrói seu destino de uma maneira.

 

GAY E OK_ Alguns de seus textos falam sobre padrões e rótulos sexuais, inclusive citando a escala Kinsey (que, de zero a seis, classifica o comportamento sexual humano de exclusivamente heterossexual a totalmente homossexual, passando por cinco níveis de possibilidades menos fechadas). Ao mesmo tempo, sabemos que gays e lésbicas “de carteirinha” costumam ver bissexuais como pessoas indecisas e até pouco confiáveis. A tal “nova ordem sexual” será mais compreensiva com quem é bi? Os bissexuais não deveriam ser maioria?
ANDRÉ FISCHER_ Olha, eu acho que daqui um tempo todos esses rótulos tenderão a sumir. Não faz sentido colocar uma pessoa em uma gaveta só porque ela é loura ou morena, assim como não deveria acontecer com gay, héteros ou bi. E a nova geração já está aos poucos derrubando esses padrões.

 

GAY E OK_ Sabemos que mesmo dentro do que chamamos de comunidade existe bastante preconceito. Contra os rapazes efeminados, contra as meninas mais masculinas, contra travestis. No trânsito, já vi gays berrando “Ô, seu veado!!!” para reclamar de alguma barbeiragem de outro motorista. Tendo sido criados em uma sociedade ainda pouco esclarecida quanto à homossexualidade, como não repetir nós mesmos, entre nós, as coisas contra as quais militamos?
ANDRÉ FISCHER_
Eu sou bem politicamente correto, do tipo quase chato que corrige os outros e reclamo quando alguém se expressa de forma preconceituosa. A reação dos outros geralmente é de se envergonharem quando se dão conta de que estão sendo preconceituosos. Então é fundamental começar a mudança por si mesmo, não repetindo esses chavões. 

 

GAY E OK_ Você é o grande homem por trás do MixBrasil, portal referência para a comunidade gay. Em seu livro, comenta sobre o sexo virtual e comportamento online. É inegável que, para os homossexuais, a Internet oferece muitas oportunidades de identificação e sociabilização: interação em comunidades virtuais, bate-papo, acesso a notícias e a material erótico. Um gay conectado é um gay mais bem resolvido?
ANDRÉ FISCHER_ A Internet dá a oportunidade de encontrarmos outros semelhantes, põe por terra o isolamento que a maioria absoluta dos homossexuais era condenada a experimentar até pelo menos a idade adulta. Isso facilita muito a vida… 

 

GAY E OK_ Você faz um levantamento muito interessante sobre os onze primeiros anos da Parada Gay de São Paulo, desde os tempos em que duas mil pessoas tentavam fechar pelo menos uma pista da principal avenida brasileira. Hoje, o evento na Paulista é uma festa reconhecida mundialmente. Em que a celebração brasileira difere das outras manifestações “Pride” por aí afora?
ANDRÉ FISCHER_ Aqui optamos por um modelo mais carnavalesco, menos político. Isso trouxe mais gente e nos permitiu crescer tanto. O problema é que nos últimos anos o carnaval deu uma degringolada, virou uma festa violenta e sem a participação de uma boa parcela da comunidade…

 

GAY E OK_ Para fechar: em qual sem-número de atividades você está envolvido hoje, e que projetos bacanas vêm por aí?
ANDRÉ FISCHER_ Estamos com uma revista nova em fase de maturação, a reformulação da nossa rádio. Além de todos os sites, desde o MixBrasil ao XXY que esse ano passarão por mudanças grandes. É ver para crer ;-)
 

* * *

“Como o Mundo Virou Gay”, de André Fischer, está à venda no Submarino. É must-have.

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8 Responses to “Como o mundo virou gay? Entrevista com André Fischer”

  1. Confesso que fiquei tentada a adquirir já o exemplar colorido. Porém as finanças não ajudam no momento.

    A entrevista deixou um gostinho de “quero mais” nos olhos atentos de uma sapa no armário.

    Ósculos e amplexos pra vcs!

  2. 2 marta

    Adoro suas entrevistas.

    Também fiquei com vontade de ler. E gostei do que ele falou da Parada.

    =**

  3. Bem interessante,
    desconhecia o livro.. mas certamente vou procurá-lo.
    E quero elogiar o blog também pelo ótimo conteúdo.
    Se tiver tempo – e principalmente interesse – passe no meu também.

    Um abraço,

    http://putoanonimo.blogspot.com

  4. Muito interessante,

    Desconhecia o livro, mas vou procurá-lo.
    Quero também elogiar o blog pelo conteúdo e linguagem.
    Passe também no meu blog se tiver tempo – e principalmente interesse.
    Um abraço.

  5. Ahn,
    te linkei no meu blog!

  6. 6 M.

    Aproveito este espaço para levantar uma questão. Os homossexuais continuam a ser inibidos nos dias de hoje de doar sangue. São ainda considerados um grupo de risco. Nesse sentido existe uma petição online com a tentativa de mudar essa medida:

    http://www.peticao.com.pt/doar-sangue

    Se estiverem contra essa medida, assinem! Obrigada. *

  7. Parabéns pela ótima entrevista! Admiro muito o trabalho do André Fischer, legal ver que ele é mesmo tudo que aparenta ser através dos projetos dele.

  8. 8 ana sol

    essa a tal entrevista que ía rolar?
    adorei!
    parabéns, mas não prometo que vou ler o livro.. c sabe né!


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