Nada contra?!

21ago09

Há duas semanas, li no caderno Rio Show do jornal O Globo esta carta de um leitor reclamando sobre o tratamento recebido no Chico & Alaíde, um bar localizado no bairro do Leblon (Rio de Janeiro). Acompanhado de seu namorado, e agindo devidamente como um casal que são, o rapaz acabou sofrendo repreensão pelo dono do estabelecimento.

 

É proibido proibir?

Fui ao Chico & Alaíde com meu namorado e três amigas. Depois de comermos bolinhos, uma pessoa, que se identificou como o dono, disse que deveríamos parar com o nosso comportamento ou nos retirarmos do bar. O “nosso” comportamento era eu estar abraçado com meu namorado e ter dado um beijo discreto nele. Fomos embora, indignados com o preconceito. JOÃO PEDRO BORGES, por e-mail.

Chico Chagas, um dos sócios do bar, responde: “eu não tenho nada contra gays, mas este é um bar família, cheio de crianças. Tem que se comportar melhor. Depois de alguns clientes reclamarem comigo, eu intervi. Falei educadamente com eles, que, aliás, não eram nada discretos.”

 

Ou seja: tudo bem ser homossexual, desde que você não beije alguém do mesmo sexo. Faz sentido?

Sobre este episódio, o escritor João Paulo Cuenca publicou em seu blog um texto brilhante. Publico abaixo, na íntegra.

* * *

O árbitro moral é o dono do boteco (por João Paulo Cuenca)

Cena recorrente no Balneário é a expulsão de um casal homossexual por trocar beijos ou estar de mãos dadas num bar. Repercute na imprensa bissextamente e quando trata-se de lugar na Zona Sul – há algum tempo, o pré-moderninho Mofo, no Flamengo, na última semana o neo-botequim Chico & Alaíde, no orquidário do Leblon.

Publicada no suplemento Rio Show de sexta passada, a justificativa do gente boa proprietário do bar, Chico Chagas, é um primor de estupidez e ignorância automática que merece ser reproduzida ipsis litteris e comentada em partes:

1- “Eu não tenho nada contra gays, mas este é um bar família, cheio de crianças. Tem que se comportar melhor.”

Antes de tudo, o Chico poderia definir o que exatamente faz de um bar família – para os meus padrões, nunca entrei num desses (e tenho o azar de conhecer todos os bares do Principado do Leblon).

Depois, gostaria de entender o que tantas crianças fazem numa casa cujo produto principal são tulipas sobrevalorizadas de chope – os salgadinhos caíram muito de qualidade desde que saíram da cozinha do Bracarense, diga-se. Também seria interessante que o Chico definisse o que é se comportar melhor. Beijar alguém do mesmo sexo na boca é se comportar pior baseado em que tipo de parâmetro? Seja qual for, preconceito contra opção sexual de terceiros, além de falta do que fazer, é tipificado como crime pelas leis brasileiras.

Leis? Mas quem precisa delas numa sociedade em que o árbitro moral é o dono do boteco?

2- Vossa Senhoria continua a deblaterar: “Depois de alguns clientes reclamarem comigo, eu intervi. Falei educadamente com eles que, aliás, não eram nada discretos.”

Os clientes tem todo o direito de reclamar de qualquer coisa, inclusive do preço do chope e da temperatura da empadinha, dados objetivos e facilmente quantificáveis. Já discrição é conceito relativo. Se aquele fosse um casal “normal”, segundo os padrões dos proprietários e da clientela do boteco, imagino que fosse considerado discreto. De qualquer forma, não há educadamente que justifique tamanho absurdo – um bar é um lugar público e um beijo homossexual não é atentado ao pudor.

***

Esse tipo de tribunal urbano é o que dá origens a manifestações que já deveriam ser anacrônicas, como passeatas de orgulho gay que estampam gosto pessoal em bandeiras multicoloridas.

Enquanto seres humanos do mesmo gênero não puderem andar de mãos dadas e beijarem-se sem que isso seja considerado um ato subversivo ou, pior, político, estaremos sujeitos a idéia bizarra de que alguém deva orgulhar-se por ter uma ou outra opção sexual.

***

Nada disso surpreende num país em que o fato novo da campanha eleitoral para a sucessão presidencial de 2010, até então polarizada entre o sujo e o mal lavado, é a aparição de uma pré-candidata que defende o ensino criacionista nas escolas públicas.

Num reino onde confunde-se o público com o privado em todas as esferas, deve ser normal que fiéis a Deus imponham sua crença dentro de salas de aula sustentadas pelo Estado, supostamente laico.

Laico e assexuado, espera-se.

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5 Responses to “Nada contra?!”

  1. Tenho um perfil no twitter que divulga post de blogs que abordem o tema LGBT.
    Divulguei o seu lá.
    Se tiver indicações de post e blogs interessantes, pode me mandar e-mail.
    Obrigado.

    Abraços.

  2. 2 Carol

    Que texto lindo. Queria eu saber organizar as idéias em palavras tão bem assim :)

  3. 3 marta

    No Brasil não existe preconceitos: somos um país onde as raças e credos se misturam. Não é isso que dizem?

    Só que SEMPRE tem um ‘maaaaaas…” no final de frases como “não tenho preconceito contra [insira aqui um rótulo], mas aqui é um lugar assim ou assado”.

    Como você mesma já escreveu aqui (https://gayeok.wordpress.com/2008/02/24/nossa-mas-nem-parece), convivemos com essas frases tipo “ele é gay, mas é discreto, nem parece”, “ela é lésbica? nossa, mas é tão feminina!” etc.

    A atitude desse indivíduo é lamentável sob todos os aspectos.

  4. 4 Camile

    Acho ótimo isso de “é um lugar família, com crianças”. ÓTIMO! Então eduquemos nossas crianças para o preconceito. Corram, tirem suas crianças da sala, há monstros anormais demonstrando afeto ali adiante!!
    Lógico, a criança não pode ver homossexuais se beijando, mas ela pode presenciar os pais brigando, pessoas sendo constrangidas e mal tratadas, pode ver os mendigos na rua, pode ver todas as injustiças e dores desse mundo. Mas não, não pode ver uma demonstração de afeto! Nem as crianças e nem as famílias de bem. Porque as famílias de bem estão lá ocupadas em aparentar felicidade e sucesso por trás de suas máscaras que ocultam descontentamento, frigidez, tristezas.
    Sim, eduquemos nossas crianças sob esses parâmetros. Assim elas não fazem nada. Se acostumam com o preconceito, com a dor, com a injustiça. Aí a gente produz mais máscaras também.

  5. Eu acredito em igualdade de direitos. Não acho legal que crianças presenciem casais (sejam héteros ou gays) se agarrando em público. Mas não tenho nada contra demostrações discretas de carinho.

    Para mim esses caras que tem tanta aversão ao homossexualismo são é um bando de bichas enrustidas. Viva e deixe viver!

    Prefiro ter amigos gays do que amigos preconceituosos.


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